08/04/2011

Dengue poderá ser detectada pela saliva

Um estudo liderado por pesquisadores do Canadá e de Bauru pretende revolucionar a forma de diagnóstico da dengue, doença que preocupa a cidade com 1.438 casos confirmados somente neste ano. Ainda em fase inicial, a pesquisa tornaria o diagnóstico da moléstia mais ágil, barato e indolor, já que seria realizado por meio da coleta de saliva do paciente. A amostra seria depositada em um aparelho que, futuramente, poderia ser adquirido por qualquer pessoa em farmácias ou postos de saúde.

Iniciada há cerca de um mês, a parceria entre pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade Estadual Paulista (FOB/USP) e da Schulich School of Medicine and Dentistry, do Canadá, ainda terá um longo caminho a percorrer. A estimativa é de que ainda serão necessários pelo menos cinco anos, em um cenário otimista, para que este equipamento seja desenvolvido e se torne comercialmente viável.

Atualmente, o diagnóstico é feito através da análise de amostras de sangue. O problema é que, com este método, é preciso esperar a reação dos anticorpos ao vírus injetado pela picada do mosquito Aedes aegypti, o que pode levar, em média, de sete e dez dias. É esse o tempo que a rede pública é orientada a esperar para fazer o diagnóstico, já que, antes disso, a probabilidade de o resultado ser um falso negativo é grande.

“Se o paciente precisar ficar internado em observação antes de receber o diagnóstico, o custo para o hospital aumenta, assim como os riscos ao doente, que terá a detecção da doença retardada”, aponta o idealizador da pesquisa e professor da Schulich School, Walter Siqueira, que está em Bauru para participar de um simpósio promovido pela FOB (leia mais abaixo).

No novo método em estudo, não é preciso esperar pela reação dos anticorpos no sangue do paciente. Por meio das proteínas presentes na saliva, é possível identificar a presença do vírus ainda nos primeiros dias após a contaminação. “Nós estamos desenvolvendo um equipamento para isso. A ideia é que ele possa vir a ser uma pequena máquina ou uma fita, como um teste de gravidez, que a pessoa possa comprar, depositar a saliva e saber o resultado em poucos minutos”, explica Siqueira.

Sem traumas

Além da agilidade no processo, ele acrescenta ainda como ponto vantajoso sobre o teste sanguíneo a praticidade, já que qualquer pessoa não especializada poder fazer a coleta, sem traumas principalmente para pacientes infantis e idosos. “Basta depositar a saliva em um tubo. Não precisa de agulha, não há dor nenhuma”, assinala.

A avaliação se daria por meio de um aparelho contendo um microchip, onde a saliva seria depositada. Microcanais bastante sensíveis dentro deste dispositivo tornariam a análise das proteínas mais rápidas e precisas em comparação ao exame de sangue. “O sangue possui uma série de proteínas, como a albumina, que camuflam outras e podem tornar a análise mais demorada. A saliva também possui albumina, mas numa concentração muito menor, o que melhora o resultado do teste”, comenta.

Por este motivo, o novo método de diagnóstico pode ser um reforço na luta que muitas cidades brasileiras, como Bauru, travam contra a dengue. Como o vírus é detectado logo depois de a pessoa ser contaminada, é possível começar o tratamento mais cedo, o que aumenta as chances de cura do paciente e desafoga o serviço público de saúde.

De acordo com Siqueira, a escolha para estudar um método de diagnóstico mais eficaz contra a dengue deu-se em razão de tratar-se de uma doença global, que atinge cerca de 1 bilhão de pessoas por ano no mundo, principalmente em países de clima tropical. “Eu, como pesquisador brasileiro que sou, tive a oportunidade de estudar e desenvolver meu trabalho fora do meu País. Para mim, é uma grande satisfação poder fazer algo pelo Brasil, através dessa parceria com a Faculdade de Odontologia de Bauru”, afirma.

Pesquisa

Nesta fase inicial, segundo o professor Walter Siqueira, a intenção é identificar o máximo de proteínas presentes na saliva que possam funcionar como biomarcadores para a dengue e, numa segunda etapa, fazer uso de métodos que possam validar estes marcadores. Ou seja, assim que identificadas as proteínas salivares que possam estar relacionadas ao virus da dengue, um equipamento já em desenvolvimento para fazer o diagnóstico começará a ser testado.

“Numa etapa final, a intenção é este equipamento possa ser distribuído em postos de saúde ou vendido em farmácias, para fácil acesso da população”, explica. Segundo Siqueira, um microchip ainda em teste para detecção de câncer bucal por meio de saliva custa atualmente em torno de US$ 100.

Mas, quando produzido em larga escala, a tendência é que o preço baixe e possa ser adquirido pelo governo e por grande parte da população. “No mundo, temos 1 bilhão de pessoas afetadas pela dengue por ano. É um número muito alto. Quanto mais gente tiver a oportunidade de usar o equipamento, mais barato ele vai ficar”, observa.

Exame múltiplo

Não é apenas a dengue que estudiosos estão tentando detectar a partir da saliva. Por meio de uma nova técnica científica denominada proteoma (estudo das proteínas), pesquisadores procuram descobrir métodos para diagnóstico de outras doenças que vão de infecções até cânceres.

Uma das sumidades no estudo deste último tipo de doença é o professor David Wong, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA). Atualmente, suas pesquisas para a detecção de câncer bucal já estão em fase de testes em seres humanos, última etapa para que possa ser validada como método garantido de diagnóstico.

“Hoje, temos instrumentos seguros para detectar doenças como câncer oral, de pâncreas e pulmão ou outros tipos de doenças presentes em outras partes do corpo. Através da saliva, é possível fazer o diagnóstico de câncer de boca com 92% de certeza.”

Simpósio

Os professores Walter Siqueira e David Wong participam, no próximo dia 9, do “Brazilian Saliva Symposium” (Simpósio Brasileiro de Saliva), que será realizado a partir das 8h no Teatro Universitário da Faculdade de Odontologia de Bauru. Além deles, o evento contará com os principais pesquisadores sobre saliva no mundo, que ministrarão palestras até as 18h30 sobre a importância da exploração deste fluido. Inscrições e informações pelos sites http://www.sbpqo.org.br/ e www.fob.usp.br.

Última atualização: 08/04/2011

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