08/06/2008

Brasil sofre com o atraso na pesquisa de vacinas

A descoberta de um vacina contra a dengue, anunciada nesta semana pelo Instituto Butantan, de São Paulo, encheu de orgulho a comunidade científica e de esperança milhões de brasileiros que padecem todos os anos dessa doença que é mais presente em países de clima tropical.

Mas a realidade brasileira no setor de imunização ainda está longe do ideal. A burocracia, a falta de investimento e a escassez de pesquisadores impedem que o país seja auto-suficiente na produção de vacinas. A saída para o problema? Importar e depender dos avanços científicos de outros países, causando um grande prejuízo financeiro ao Brasil.

“Estamos realmente muito defasados nessa área”, lamenta o professor Reynaldo Dietze, coordenador do Núcleo de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Ele recorre às realidades brasileira e americana para mostrar a dimensão do problema: “Enquanto nos Estados Unidos temos aproximadamente 40 grupos de pesquisas trabalhando com vacinas, no Brasil temos quatro ou cinco apenas”, explica o pesquisador capixaba, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e professor da Universidade de Duke, nos EUA.

Uma realidade que deixa indignado o professor Dietze, que conhece de perto o problema em sua rotina de pesquisador nos laboratórios do Núcleo de Doenças Infecciosas da Ufes, no campus de Maruípe. “No Brasil, os problemas e desafios são enormes. Um dia é a greve da alfândega, que prejudica nosso trabalho, no outro, a burocracia, que atrasa tudo… Estamos ficando atrasados”, alerta.

Atrasados, claro, e por que não dizer, no prejuízo. “Temos poucas patentes. Pelo menos noventa por cento pertencem a grupos de pesquisas no exterior. Poderíamos desenvolver nossa própria tecnologia no setor de vacinas e vendê-la para o exterior.”

Segundo o professor da Ufes, no Brasil existem muitas faculdades de Farmácia, mas persiste uma grave distorção: “O ensino tem que valorizar a pesquisa e vice-versa. No nosso país ainda há pouca pesquisa. A área privada, por exemplo, não tem tradição no financiamento desse setor”.

Imunização é eficiente e atinge 95% das crianças

Se o Brasil ainda sofre com o atraso na pesquisa e no desenvolvimento de novas vacinas, o mesmo não pode ser dito do programa nacional de imunização, considerado muito eficiente.

Mas não é um trabalho fácil. Em um país de 186 milhões de pessoas, algumas delas vivendo em rincões onde só se chega depois de dias de viagem de barco, é um grande desafio desenvolver um programa que se proponha a vacinar toda essa população.

O Programa Nacional de Vacinações brasileiro foi criado em 1973 e chega a aplicar 130 milhões de doses por ano. Atualmente, 95% das crianças menores de um ano estão vacinadas, número bem superior ao do ano de 1978, em que a vacinação atingia somente 40% das crianças.

O desafio agora é a rede pública de saúde distribuir vacinas que estão chegando ao mercado e que só estão disponíveis em clínicas particulares, ou que ainda são administradas a apenas uma parcela da população, como a antigripe, para os idosos.

O professor Reynaldo Dietze, da Ufes, avalia, por exemplo, que seria importante que a rede pública passasse a ministrar a vacina contra o HPV (doença sexualmente transmissível), tanto para mulheres como para homens, e contra a gripe influenza, para toda a população, e não apenas aos idosos. “Evidentemente que o Ministério da Saúde tem que dimensionar muito bem esse programa, porque essas novas vacinas que estão sendo descobertas são muito caras.”

Programa brasileiro prevê 26 vacinas

O Programa Nacional de Imunizações brasileiro compreende 44 imunobiológicos, incluindo vacinas, soros e imunoglobulinas. São 26 vacinas no calendário de vacinação de rotina. Ao completar um ano, a criança brasileira já deve ter se vacinada contra poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, infecções causadas por hemófilos, sarampo, rubéola, rotavírus e caxumba. Os adolescentes também possuem calendário próprio, caso não tenham se vacinado corretamente quando crianças.

Homeopata é a favor da monovacinação

Pensando em divulgar mais informações sobre os efeitos da vacinação, a pediatra homeopata Liliane Azambuja, do Centro Gaúcho de Estudo e Pesquisa em Homeopatia, criou uma comunidade no Orkut chamada “Tem Vacinas D +”. A médica diz que não é contra as vacinas, mas acha importante a monovacinação – aplicar uma vacina por vez. “Atualmente, um bebê recebe de cinco a oito vacinas de uma só vez, o que, sem dúvida, constitui uma sobrecarga ao sistema imunológico”, diz.

Associação apóia a ampla vacinação

A Associação Médica Homeopática Brasileira, entretanto, segue a orientação do Ministério da Saúde em relação à vacinação. O pediatra Ariovaldo Ribeiro Filho, presidente da Associação Paulista de Homeopatia, considera que a descoberta das vacinas foi um grande benefício, principalmente para as populações mais expostas: “É mais fácil para pais de classes sociais mais favorecidas recusar as vacinas, pois seus filhos podem ser atendidos logo após os primeiros sintomas”.
Fonte: A Gazeta

Última atualização: 08/06/2008

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