01/06/2011

Bahia testa mosquito transgênico antidengue

Pelas ruas de terra do bairro de Itaberaba, em Juazeiro (BA), um carro com dois pesquisadores para a cada 100 metros. Um deles desce e destampa um pote de onde saem cerca de 500 mosquitos Aedes aeypti, o transmissor da dengue. A cena se repete há três semanas e, até julho, a expectativa é de que sejam liberados 33 mil machos por semana. Depois a ação subirá para 50 mil a 100 mil mosquitos por semana.

A “pulverização” de mosquitos foi repetida 22 vezes na tarde de quinta-feira retrasada. O ritual faz parte de um projeto científico que gera expectativa na administração pública da saúde. “Se der o resultado esperado, podemos reduzir de maneira expressiva os números da dengue”, avaliou o coordenador do projeto, Danilo Carvalho.

“Não há dúvida de que o projeto é promissor”, afirmou o diretor do Complexo Industrial e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Zichy Moyses.

A chave dessas esperanças está no mosquito solto no ambiente: é uma espécie transgênica que produz filhotes que morrem antes de chegar à vida adulta, quando podem transmitir a dengue. Na prática, a ciência patrocina o sexo entre mosquitos que geram filhotes incapazes de espalhar a doença. O ideal é que haja dez machos transgênicos para cada macho selvagem.

A estratégia é semelhante à usada em outras parte do País para combater a drosófila, a mosca da fruta: machos estéreis são liberados para disputar com a espécie selvagem a oportunidade de cruzar. Para o macho de laboratório ficar estéril, ele é exposto a radiação – o que não se consegue com o Aedes aegypti. “Por isso recorremos à técnica transgênica”, diz a coordenadora do projeto, Margareth Capurro, bióloga da Universidade de São Paulo.

Desenvolvido na Universidade de Oxford, o mosquito transgênico carrega material genético da drosófila. Em laboratório, são alimentados com ração de peixe e, para fêmeas adultas, sangue. Na fase de ovos, todos recebem tetraciclina, o que permite completar o ciclo de vida – o que não ocorre no ambiente.

As fêmeas, as únicas que picam os humanos e transmitem o vírus da dengue, ficam em laboratório para novos cruzamentos. Para que não haja risco de serem liberadas, são adotadas duas medidas de segurança. A primeira separação ocorre num túnel escorregador em forma de funil. Como as fêmeas são maiores, não ultrapassam uma certa faixa da descida. Há outro processo de separação, desenvolvido pela Oxitec, empresa incubadora da Universidade de Oxford. “Depois, é feito um controle de qualidade com lupas e microscópio”, explica Andrew McKeney, técnico da Oxitec que está no Brasil para acompanhar a pesquisa.

Cinco bairros. Liberado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança em dezembro, o trabalho em campo teve início em fevereiro. Na primeira etapa, foram feitos lançamentos menores, para avaliar o comportamento do mosquito de laboratório no meio ambiente. Foram checadas a distância que o mosquito era capaz de percorrer e sua capacidade de sobrevivência.

A experiência ocorrerá por 18 meses em cinco bairros de Juazeiro. A escolha do local, diz Margareth, foi facilitada pela proximidade com a Biofábrica Moscamed, entidade ligada ao Ministério da Agricultura que já produzia moscas estéreis.

Fonte: Estadão

Última atualização: 01/06/2011

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